27 DE DICIEMBRE DE 2026

A crueldade sem rosto
Clara atravessava a praça, o sol pálido refletindo nos rostos apressados. Todos pareciam iguais: gestos comuns, sorrisos educados. Mas algo a inquietava. Um homem gritou com o filho; uma mulher riu da mendiga caída. Silêncios cortavam como lâminas.

Na noite anterior, Clara sonhara com uma máscara branca, sem traços, flutuando em sua direção. «Você me conhece», sussurrava. Acordou com o peito oco. Agora, na multidão, via a máscara em cada olhar vazio, em cada palavra doce que escondia veneno.

Um garoto tropeçou à sua frente. Ninguém parou. Clara hesitou, mas seguiu, o peso da indiferença a engolindo. Ao chegar em casa, encarou o espelho. Seus olhos eram poços escuros, sem fundo. A máscara estava lá, refletida.

A crueldade não tem rosto, pensou. Mas tem meu nome.